quarta-feira, 9 de maio de 2018

sobre aquelas engrenagens

meu pulso
tal qual aquelas peças miúdas
tem seu ritmo sistêmico
guiado por seu papel
marca
passo
marca
texto
marca
passa
meu corpo
tal qual aquelas engrenagens
se encaixa
no seu
passa
entrelaça
entrepernas
entre nós
o relógio parou
nosso tempo passou
mraca
pssao
mcara
txeto





O que a preta leva na lata?

O que a preta leva na lata?
(Ah, que bom que pergunta! Pois se há uma coisa que me impressiona, é o pescoço da preta! Pescoço da preta é pescoço duro, pescoço forte. É que nessa lata, a preta leva segredos do começo, daquele tempo que a gente nem mensura. Dum tempo que ela se ocupava da cria enquanto os provedores saiam pra caça. Será que pesa a distorção da história que a preta leva na lata? Nessa lata, além de segredos dos tempos perdidos, a preta leva história documentada num papel queimado, grilado, armazenado no fundo de arquivos indesejáveis e nossa, eu sei! Esses arquivos pesam. E os sapos que muita gente acha que a preta engole, preta não é maluca, leva os sapos na lata. Os sapos são muitos e pesam. A preta carrega nãos. Carrega desempregos e quando empregada carrega os menores salários. Carrega estupros e a maior porcentagem de feminicídios. Além de tudo a preta ainda carrega a descrença, as desculpas esfarrapadas que não convencem nem quem as pronuncia. Mas o pescoço da preta é duro e a preta acomoda mais essa na lata.)
(A preta leva água pra matar a sede dos seus, diluir os sais que saem dos poros dos seus, hidratar a terra que abriga os seus, lavar os pés exaustos, que não se cansam, dos seus.)

É água. A preta leva água. 

Jasmim

São poucas as coisas no mundo
que sem gasto de palavras
muda tudo
mergulha fundo
te leva junto
como a flor de jasmim

São poucas as coisas na vida
que sem data de chegada, ou partida
te transforma e te ilumina
como a flor de jasmim

São poucas as pessoas que existem
que apenas por existirem
se enraizam e te florescem
como a menina Jasmim


acadêmica


a vida se enraiza
se cruza
se dispersa
por diásporos
em dias ásperos
em velames
entre pernas
a vida se faz
nos encontros
pelas rezas
no cerrado
na mata, nas selvas
sigo
enquanto senesço
floresço