sexta-feira, 14 de outubro de 2016

constante

você é como um deserto
em você caminho como nunca caminhei
você é infinito para os meus pés
e por mais que eu caminhe
jamais chegarei ao fim
você me dá vertigem
me dá sede
meus pés doem

terça-feira, 11 de outubro de 2016

sabotagem.

essa mania minha
de pisar em vidro
de sair da linha
esse vício meu
de querer me encontrar
no corpo que é seu
essa minha sabotagem
diária,
de sempre
que é provável
me acompanha do ventre
me torna sedenta
me deixa faminta
a coragem mata minha sede
a incerteza me alimenta
eu bem sei
que mais uma vez
me sabotei
quando com você
eu me deitei
mas é disso que eu vivo
vivo nos deslizes
vivo no perigo
vivo no rato que escapa
no carro que derrapa
na luz que falha, mas não se apaga
eu vivo de amor
e isso me dói e me afaga



dia doze.

aqueles zóios grandes
que correm na vizinhança
que bisbilhotam vitrines
ainda são zóios de criança

aquela mão calejada
com unha encardida
que talvez queira vingança
ainda é mão de criança

aquele pé preto
pé descalço
pé no asfalto
o pé daquele moleque
ainda é um pé de criança

que nesse dia doze
voltemos os nossos olhos
pro abismo que afasta:
o menino do playstation
do menino da desgraça

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

casa.

Na casa da Luíza chove.
Lá faz tempo.
Às vezes tempo preto,
às  vezes tempo cinza.
Volta e meia faz arco íris.
Terezinha grita:
Sai do tempo, menina.
Luíza saía.
Agora não mais.
Agora ela se suja na lama, que é sua.
Ela bebe da água, que é sua.
Agora ela chove,
faz chover.
Ela é chuva,
faz molhar.
Ela solve,
se dissolve.
Faz sol.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

desvios.

nos trilhos deixados
reticulados no limbo
te solto
te dou mil passos
e não te perco

nas linhas traçadas no mapa
nas curvas de nível
bacia hidrográfica
te perco
me dou mil passos
me solto

sábado, 24 de setembro de 2016

dilatação.

eu,
observador em repouso.
ruminante do tempo.

você,
observador em movimento.
expansor de sentimento.

a separação do espaço
somada as nossas distintas velocidades
resulta num tempo dilatado
pra você, talvez doce
pra mim, amargo.
há aqui, um tempo distorcido
pra você vivido
em mim ainda sentido
há pra nós distintos tempos
e em mim um paradoxo
meu tempo, de sentido carece.
uma vez que ele não passa
tampouco permanece.


quarta-feira, 30 de março de 2016

passado.

deixei as malas no trem,
o beijo- na boca
o riso- no rosto
o choro- engoli
deixei os males no trem,
desci

instabilidade.

eu gosto do torto
do dito pelo não dito
do que não tem conserto
do que não tem mais jeito

sou fragmentada
eu mil partes
em mil cantos
em mil contos
encontrada

sou da estrada
dos bares de esquina
sou do samba
no mais, minha

sou chuva que escorre
transborda em bueiros
nas ruas imundas
me apego ao passageiro

o que é bom
a mim não basta
eu vivo em paz
vivo em desgraça


segunda-feira, 28 de março de 2016

ansiedade

vem sorrateira
te conhece os desejos
os medos
e se embebeda
se deleita enquanto o corrói
te toma o ar
te afoga
te dói
e apesar de tudo
você a alimenta
se compraz da tormenta
a acaricia
se delicia
a cria
e assim ela se faz grande
te engole
e nesse abrigo
você se faz menino
e adormece.

sexta-feira, 25 de março de 2016

sobre ser.

não é fácil ser de lua,
requer um céu inteiro.

emudeço

tão cheio de mim
vazio de mundo
pergunto:
a que vim?

tão cheio de si
caminha imundo
pergunto:
e daí?

tão cheio de vazio
mundo imundo
não pergunto
sigo mudo






sinto muito